Sweet talk com Marta Gautier

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A Marta é psicóloga clínica, escritora, humorista e faz palestras motivacionais. Neste momento está em cena com o “Conversas sérias com Marta Gautier. O que farias se não tivesses medo?” no Sá da Bandeira, Porto e prepara dois Workshops: dia 5 e 6 de Dezembro no Villaret (Lisboa) intitulado ‘Acabar com a ansiedade e sofrimento’ e dias 30 e 31 de Janeiro no Sá da Bandeira (Porto), intitulado ‘Quero saber quem sou’. Além de ser uma mulher que tem inúmeros ofícios ainda é mãe de três rapazes.

Sweetforty: Se tivesses de te apresentar, o que dirias?

Marta Gautier: Isso é muito difícil, porque é logo como se me estivesses a obrigar a dar um nome, o que me irrita. Mas pronto, sem querer armar-me em poeta e passando o lugar comum, talvez diga: alguém que procura. E encontra.

SF: Qual foi a coisa mais engraçada que te aconteceu num espetáculo?

MG: Esta não foi engraçada, mas no fim, eu e a equipa rimo-nos da situação. Durante um espetáculo para rir “Vamos lá então perceber as mulheres, mas só um bocadinho”, um casal que estava na terceira fila, começou a discutir, e eu acho que tinha a ver com coisas que estavam a ser ditas em palco, e abandonaram mesmo a peça, a meio, zangados.

O que me acontece de engraçado, é que o registo dos espetáculos é tão intimista, que as pessoas começam a falar umas com as outras, ou a falar comigo ou a dar-me dicas, como se estivéssemos ali numa conversa. Então eu costumo dizer-lhes: “Ah, vocês estão a sentir que eu sou vossa amiga, e que estamos aqui a conversar. Não! Imaginem que há aqui uma barreira, aí estão vocês, aqui estou eu, eu não quero dar confiança e portanto não vamos falar, está bem? ”. As pessoas riem-se, e continuamos.

Outra coisa boa que me aconteceu foi nas “Conversas sérias” alguém pedir em casamento uma pessoa no fim do espetáculo. Eu combinei com o meu técnico: se a rapariga dissesse “sim“, ele punha a marcha nupcial; se ela dissesse “não“, não punha nada. Achei isso engraçado porque não sou muito a favor do casamento.

SF: E a pior?

MG: É sempre um terror quando há uma branca. Se eu estiver despreocupada e descontraída, é só a deixar que o texto me apareça, que ele aparece. Basta estar em palco e pensar assim “ai e se eu não me lembrasse agora…” que pode acontecer esquecer-me exatamente porque pus essa hipótese. Nesses momentos de poucos segundos, há uma grande vontade de morrer, o perguntar filosófico de porque é que estou ali, sinto-me no centro duma grande tragédia. Normalmente no segundo seguinte o texto vem, mas se não vem, é de uma angústia desproporcional ao acontecimento.

SF: Qual foi o melhor conselho que te deram?

MG: Não ouças conselhos de ninguém, faz aquilo que tu quiseres. (Fui eu que me dei este conselho) E eu não ouço conselhos, é muito, muito raro, e se parece que estou a ouvir, estou a fingir. De cinquenta coisas que me dizem, aproveito três. E normalmente é quando uma pessoa diz uma coisa por acaso, aquilo nem era bem um conselho. E digo à pessoa, “isso é bom“. Mas normalmente quando as pessoas me dizem “giro era que…”, já desliguei.

É que às vezes as pessoas contam-me uma ideia que tiveram para eu aproveitar, mas que não tem muita graça, ou que em palco não resulta. Eu digo ‘Pois… agora eu que ponha isso com graça…’ Outras vezes, pessoas inóspitas, ou pessoas sem graça saem-se com boas ideias. Sem querer. Sempre sem querer. As dicas aparecem quase sempre de quem não tem intenção.

 Agora, conselhos como protege-te, ou nas entrevistas dá a entender que… isso é palha, palha, palha. Como eu gosto muito de agradar, ainda tento ouvir, mas o melhor mesmo é não ouvir nada, porque já se provou que a minha fórmula resulta. Eu sei exatamente onde é que falhei durante e após a minha atuação. Mas já aprendi que a nossa atitude perante a falha pode anular a falha e até superá-la. As pessoas gostam de assistir a isso. Ou seja, assim, falhar, é melhor do que nunca ter chegado a falhar. Às vezes diziam-me assim: “não fales tão alto no palco”, mas eu sei que a às vezes a minha melhor energia só sai naquele tom, e se eu estiver a ouvir os outros, vou fazer de uma forma certinha e vou dizer o texto com mais calma e essa energia perde-se. Se as pessoas estiverem a gostar do conteúdo, perdoam ou até apreciam qualquer forma.

DSC_00221SF: O que é que te faz rir?

MG: Muitas coisas. Agora estou-me a lembrar do meu filho Vasco que ao pequeno-almoço me disse assim “a mãe acordou-me e eu estava a ter um sonho ótimo”. Eu perguntei: “qual era o sonho?”, e ele respondeu “não sei, porque eu no fim do sonho tenho uma opção, guardar ou não guardar, e se eu não cheguei até ao fim do sonho, não pude guardar”. Ele é apalhaçado, claro que ele sabe que não há estas opções no fim dos sonhos, mas só sentir que os miúdos já pensam automaticamente em qualquer coisa como “save as”, tendo ele oito anos, isto faz-me rir.

Normalmente o que me faz rir são as subtilezas, não é a graça que a pessoa me está a contar, é por exemplo a hesitação com que me conta, ou o medo, ou aquela coisa do “bem, vou-te contar uma” e começam-se logo a rir. Acho ridículo, põe a expectativa alta, eu desanimo, mas faz rir o empenho da pessoa.

Também me fazem rir as piadas em si, mas muitas vezes é mais o pano de fundo, as subtilezas do comportamento humano. Por isso é que eu começo muitas vezes as frases com “aquelas que”… passam sempre por casa antes de…, “aquelas que”… querem ver as horas mas não querem assumir que querem ver as horas e então olham disfarçadamente para o relógio, “aquelas que”… dizem: ele virou-se e disse…

SF: Não vives sem…

MG: Sem comer. Quando oiço essa pergunta, penso: eu vivo sem tudo, não preciso de nada. Não quero parecer daquelas Zen irritantes. Mas de facto não me lembro de nada que me custasse horrores viver sem, nem sequer telemóvel, nem de uma caneta, nem em moda, nem em carteiras… Não estou a ser demagógica, nem pretendo um discurso de Miss. Já provei isso a mim mesma. Estive nas favelas do Brasil a fazer voluntariado, não podia levar nada, nem perfume, nem umas argolinhas, e foi uma das épocas mais felizes da minha vida. Como não há nada que fale por ti, aprendes a valer pelo que és.

Por isso é que eu disse sem comer, sei que era chato, depois morria… Ou sem água…

SF: O melhor sítio do mundo para meditar?

MG: Perto da Natureza. Eu faço uma meditação perto do mar. Ensinaram-me. Mas também dá para fazer noutros sítios. Digo assim, agora só vais ouvir e então só ouço durante 10 minutos. O barulho do mar, o meu pé a entrar na areia, uma criança a chorar. Depois é só sentir. Durante 10 minutos só vou sentir. O que acontece dentro de mim, o que sinto, quando ouço a criança chorar, quando a água fria toca nos meus pés, quanto vejo um homem a fazer o pino à minha frente.

Marta, muito obrigada, desejamos-te as maiores felicidades para os teus workshops.

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