Prémio Mulheres na Ciência: uma das vencedoras contou-nos tudo!!

 

O Prémio L’Oreal Mulheres na Ciência distingue anualmente três cientistas portuguesas, até aos 35 anos, que se tenham destacado em trabalhos de investigação. Este ano premiou trabalhos sobre as nanopartículas para tratar cancro, a detecção de alterações em doentes com AVC e a forma como a acidez do mar afecta o desenvolvimento dos peixes. Este último trabalho foi desenvolvido pela Ana Faria, uma grande amiga nossa e fiel leitora do blog!! 😉

A Ana aceitou responder a algumas das nossas perguntas. Esperamos que gostem e que vos inspirem!!

– Olá Ana, queres falar um pouco sobre o teu percurso e o objecto do teu trabalho?

Licenciei-me em Biologia Marinha e Pescas, pela Universidade do Algarve, e desde cedo comecei a participar em trabalhos de investigação das equipas da universidade. Queria experimentar o máximo de ofertas de investigação para poder decidir qual a área de estudo que mais me interessava. E foi assim que cheguei à área de Ecologia Marinha e aos estados larvares dos peixes, que é como quem diz, os peixes bebés!

Tenho particular interesse em estudar de que forma as alterações climáticas, como o aumento da temperatura e a acidificação dos oceanos, irão afectar o desenvolvimento e sobrevivência das larvas. Aquilo que acontece durante esta fase do ciclo de vida dos peixes determina, em grande escala, o número de peixes que consegue atingir a fase juvenil e adulta.

– Quais são as maiores dificuldades de alguém que se dedica à investigação em Portugal?

O financiamento…sem dúvida que os maiores entraves à investigação em Portugal são as escassas opções de financiamento e a falta de contratos de trabalho. A maior parte dos investigadores são bolseiros, um regime precário que se eterniza e não oferece qualquer segurança a um investigador.

– Se pudesses voltar atrás no tempo, em termos académicos e profissionais alteravas alguma coisa?

Nunca me tinha feito esta pergunta a mim própria…fiz um pequeno exercício mental, recuei no tempo, mas cheguei à conclusão que se nunca tive arrependimentos em termos académicos e profissionais, então é porque acredito que fiz as melhores escolhas, e não alterava nada!

– Tens algum episódio inspirador ou engraçado que gostasses de partilhar com o blog?

Tenho um episódio que me acompanha desde os meus 15-16 anos, e que me inspirou muito a seguir esta carreira de investigação. Na altura eu estava a entrar na fase de escolha de curso e de universidade, que pode ser uma fase bastante angustiante. Decidirmos o nosso futuro em tão tenra idade não pode ser decisão tomada de ânimo leve! Eu tendia muito para as ciências e a biologia marinha em particular, mas era um curso que já na altura tinha muito pouca saída e a perspectiva de estudar 5 anos para acabar no desemprego preocupava-me muito.

Um dia a minha prima, já licenciada e a caminho de uma segunda licenciatura, levou-me a jantar fora. Lembro-me que na altura achei o convite curioso porque não era hábito sairmos juntas. Mas o que a minha prima me disse nessa noite fez-me acreditar que eu seria capaz. Disse-me que independentemente do curso que eu escolhesse, eu tinha de lutar para estar sempre entre os melhores; para ser humilde mas para me destacar; para trabalhar muito e empenhar-me em cada passo da minha vida. E assim eu tanto poderia seguir medicina, letras, advocacia, economia ou biologia marinha…se trabalharmos para sermos sempre melhores, então conseguiremos ter sucesso na nossa vida. Não me consigo lembrar de nenhum episódio mais inspirador que este e que tenha sido tão decisivo no meu percurso académico e profissional!

– Alguma pergunta que gostarias que te fizessem?

Há uma pergunta que nunca me fizeram, mas que eu me coloco muitas vezes: Seria igualmente feliz a fazer outra coisa qualquer na minha vida que não fosse investigação?

Pergunta difícil para a qual não tenho resposta…há dias em que sinto que o meu trabalho é tão pouco reconhecido e que tudo o que faço nunca é suficiente, que penso que seria mais feliz num trabalho mais estável, mais constante, das 9:00 às 18:00. Mas as pequenas descobertas que fazemos, o trabalho de mar (que é um privilégio!), a forma de estar bem na vida, que tão tipicamente caracteriza o biólogo, faz-me acreditar que não seria tão feliz noutro ambiente!

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Parabéns, Ana!

Alex

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