Como é possível??

Ainda a propósito de David Duarte, o jovem que morreu no Hospital de São José por falta de cuidados médicos.

Li a carta impressionante da namorada de David publicada no Expresso e fiquei chocada. Fiquei chocada que fosse possível recusar cuidados de saúde imediatos a quem deles manifestamente precisa, porque é fim de semana, porque não há médicos. E não estamos a falar de um país do terceiro mundo (ou estamos ?), mas de um país da União Europeia.

Fiquei chocada que num hospital daquela grandeza e importância, não existisse alguém com capacidade de reacção, que pudesse encontrar uma solução, que tivesse transferido ou sugerido a transferência do doente para um hospital que tivesse meios, ainda que fosse privado, ainda que fosse em Espanha, que tivesse telefonado a médicos e enfermeiros, que tivesse a coragem de tomar uma decisão, de se chegar à frente. Quanto vale uma vida humana? Nada.

Depois confesso que também ainda me choca ver como as pessoas podem acreditar no sistema e deixar nas mãos de outros aquilo que nós temos de mais precioso: a nossa vida e a vida de quem nós amamos.

Fui ensinada desde muito pequena, por um pai muito crítico em relação ao sistema, que em todos os momentos da nossa vida nós temos de estar atentos. Atentos a tudo, e reclamar, protestar. Os primeiros problemas que se resolvem são sempre daqueles que incomodam, que protestam, que questionam. Não são os dos caladinhos e obedientes, que não chateiam, os dos alunos bem comportados ( onde é que eu já ouvi isto ? ). Temos constantemente de estar atentos, de questionar as soluções que nos oferecem, de propor outras e de não ter medo de ferir susceptibilidades ou egos. As pessoas não estão habituadas a ser confrontadas e é muito mais cómodo fazer-se como sempre se faz, em vez de se procurar soluções alternativas.

O que se passou não pode ser desfeito. Quem era responsável por salvar vidas, deixou-se ficar refém de burocracias. Não há nada de bom ou positivo a retirar deste caso, não podem vir dizer que se retirou ensinamentos para o futuro. Só dizem isso porque não são os filhos deles.

Isto é acima de tudo uma questão cultural, de falta de coragem e determinação e de saber estabelecer prioridades. Neste contexto, cabe a cada um de nós ter capacidade de reacção, em todas as situações da nossa vida. E reclamar, reclamar, reclamar.

Alex

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