A mãe agora não pode!

De vez em quando, nos momentos em que a casa parece estar sossegada; os miúdos no quarto a brincar, o meu marido distraído com o telemóvel, decido ir ver televisão. Pode ser qualquer filme que apanhe a meio, ou uma série que estou a seguir e gravei.

Chego à sala, ligo a tv e sento-me no sofá… Mal me sento, oiço: “Mãaeeee!”. O meu primeiro instinto é fingir que não ouvi, e esperar que não me voltem a chamar, mas nunca resulta. Ao segundo chamamento, lá vou eu, ter com a criança que me chamou. Normalmente é para eu ver um vídeo no youtube, ou perguntar qualquer coisa… Respiro fundo, digo que a mãe está só a ver um pouco de televisão e que depois falamos.

Vou novamente para a sala, e volto a sentar-me, com esperança que seja desta que consigo relaxar um pouco. Mas ainda não é desta; a minha filha mais nova vem ter comigo e diz-me que tem fome. Levo-a para a cozinha, dou-lhe um sumo e bolachas e explico que quero ver televisão sossegada. Será que não tenho esse direito?

Preciso tanto destes momentos a “sós” comigo mesma, em que fico a olhar para o monitor e não penso em nada. Volto para a sala e de repente oiço; “Querida, nem vais acreditar quem me ligou?” Não aguento, sou mal-educada e digo para ele me contar depois. O meu marido não se fica e começa a alegar que estou sempre a queixar-me, que já não conversamos e quando ele quer partilhar, e não quero ouvir… um dos filhos volta a chamar por mim. Peço ao pai das crianças, para ir ver o que se passa. O pai, magoado, vai ter com os filhos e começa a gabar-se: “diz ao pai o que foi, porque a mãe está muito ocupada”.

Nesta altura volto a ver televisão, estupidamente cheia de culpas e sentimentos, porém não arredo pé. Sei que este momento, não tem o sabor que imaginava que ia ter. Vejo a série até ao fim. Agora, sinto-me completamente disponível e volto para o seio familiar… Ninguém me presta atenção… Eu fico numa mistura de emoções; será que sou egoísta ou tenho direito ao meu espaço?

Volto a insistir, agora sou eu que estou carente, vou ter com eles e digo: “A mãe está aqui, o que querem fazer?”.

Sweet kisses

Maria

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