A infância não se repete

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Inês Poeiras, Presidente da Associação Caminhos da Infância, é a mentora da campanha “A infância não se repete, fica para sempre” e, com o apoio da apresentadora de televisão Leonor Poeiras (são irmãs, não é uma coincidência!), lançaram este ano a terceira edição deste projeto de prevenção dos maus tratos na infância.

1 – Esta campanha contra os maus tratos na infância, não se refere apenas à violência física, mas também à negligência na infância. Podes dar-nos alguns exemplos?

Sim, é verdade. A nossa campanha desvia-se um bocadinho da abordagem tradicional focada no mau trato físico que, curiosamente, regista os índices mais baixos de incidência dentro dos vários tipos de mau trato.

A negligência é muito mais incidente e tem efeitos muito graves e duradouros. Somos negligentes, por exemplo, quando descuramos sistematicamente as rotinas da criança em função da vida do adulto (supressão da refeição à mesa), quando não valorizamos comportamentos e conquistas, quando não damos competências (os pais que querem fazer tudo pelos filhos), quando não impomos limites (comer uma mouse de chocolate ao lanche?), quando suprimimos o afeto mesmo quando estamos zangados com um comportamento, quando ignoramos a criança, somos tantas vezes negligentes…

 2 – Como é que podemos participar nesta campanha?

 Esta é uma campanha de sensibilização, com o lema “estarmos juntos faz-nos crescer”, se divulgar e levar as pessoas a pensar no assunto já está a participar. Podem sempre ir ao facebook, pensar na sua relação com os seus filhos, preencher a frase “_________ faz-nos crescer” e partilhar. Estamos já com novos planos!

3 – Até que ponto me posso envolver, se assistir a um caso de negligência na infância?

Pode não, deve! Parece-nos que o papel de cada um e de toda a comunidade é o que está a falhar. Se eu, enquanto mãe/pai tiver recursos, consigo ultrapassar de uma forma muito positiva o meu dia a dia de cansaço, stress… ninguém está imune ao cansaço, ao desgaste da rotina de todos os dias…

Intervir tem que ser pela positiva, temos que alterar a mentalidade de caça às bruxas e deixar de apontar o dedo. Temos que ajudar. Se nos apercebermos, por exemplo, que há uma vizinha que tem 3 filhos e está cansada, que tal oferecer-se para ficar com os miúdos para ela ir dar uma volta?

4 – Como é que podemos estar mais presentes na vida dos nossos filhos?

 A nossa presença é na rotina do dia a dia (é aí que a criança cresce e se desenvolve), na valorização do seu desempenho, no reforço positivo e dar valor ao que eles valorizam, por mais insignificante que possa parecer.

5 – Qual o maior erro que os pais podem cometer com os filhos, sem se aperceberem?

Assim, de repente, o maior erro deve ser aquele que só nos apercebemos em momentos críticos da nossa vida, em alturas de balanço… há este paradoxo de dizermos à boca cheia que a nossa prioridade é a família, são os filhos… e depois o nosso recurso mais precioso, que é o tempo, é muitas vezes canalizado para outras coisas onde os filhos não são envolvidos… A urgência dos filhos vem sempre a seguir, porque há a sensação de que eles vão lá estar sempre. O trabalho, por exemplo, é sempre imediato, é sempre para amanhã… e então trabalha-se, trabalha-se…  Fica o desafio: “onde é que põe os seus recursos?”

Maria

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